«Todo o Rossio a cantar...» |
Crónica de uma vitória duas vezes adiada |
| Sem os choros e alívio que marcaram a festa leonina da época 1999/2000, a festa do novo campeão nacional abalou ontem Lisboa. Envolveram-se camiões de recolha do lixo apropriadamente verdes nos festejos, foi encontrado um insuspeito jogador da União de Leiria de cachecol verde e branco ao peito no meio dos adeptos e, sobretudo, consagraram-se os dotes de "songwriters" da claque do Sporting. |
| "Só eu sei porque
não fico em casa" é o inevitável hino da festa do Sporting, que devolveu
definitivamente o Rossio aos lisboetas. Ontem, a Praça do Rossio era dos carros e das
pessoas. Chegados de Alvalade, do Campo Grande, do Campo Pequeno e do Marquês de Pombal,
avenida abaixo, todos esperaram no Rossio pelo autocarro dos jogadores, que haveria de
fazer desembocar um rio de gente na Praça do Munícipio, onde uma multidão entusiasmada,
bem bebida e delirante ouviu o goleador Jardel confessar, num grito: "Para o ano
quero continuar a jogar no Sporting". 21h30 - O Benfica venceu o Boavista e começam a ouvir-se os primeiros foguetes e buzinas na rua. 21h45 - Todos os caminhos vão dar ao Rossio. Com a festa adiada em duas jornadas, era há muito sabido que o plano da autarquia e do clube era concentrar os festejos na Baixa. Estacionar ainda é fácil, mas há quem não se dê ao trabalho e estacione mesmo na Praça do Rossio. Mesmo. Ao lado das fontes. No meio da praça. 22h00 - Cerca de duas centenas de clones de Jardel, Niculae, João Pinto e outros jogadores que nunca entraram no plantel de Alvalade com nomes enigmáticos como "A. Rombo" ou "Vitinho" pulam no Rossio e fazem negaças aos carros - todos do Sporting - que passam. O trânsito começa a ser cortado pelos adeptos. 22h30 - Quase um milhar de pessoas está no Rossio, a ocupar democraticamente todos os pontos altos à vista, uma tendência que se repetiu ao longo da noite. O topo das paragens de autocarros serve de plataforma para gritos imaginativos - "Sporting, Sporting, Spóóórting" - ou para o hino dos hinos do campeonato 2001/2002: "Só eu sei...". E o resto já sabem. Se não sabem é porque não ligaram a televisão ou o rádio este fim-de-semana. 22h44 - Tochas vermelhas são acesas perto da Rua Augusta, lançando um mar de adeptos em busca da luz. Os amigos começam a encontrar-se, o calor dos cânticos aumenta e muitos garantem saber o segredo da paternidade de uma tal Mariana. Vários grupos cantam ao desafio um simpático convite para que um outro Simão saúde o campeão. 22h53 - Os carros que vêm dos Restauradores e que se arriscam a passar pelos enlouquecidos sportinguistas são amigavelmente abanados até saltarem espelhos. Os ocupantes dos veículos riem-se enquanto dezenas de jovens sportinguistas ajudam em mais um teste às suspensões do carro. Só uma rapariga grita porque lhe arrancaram o cachecol do Benfica que trazia enrolado ao pulso. "O que é que 'tavas' à espera?", grunhe, retórico e pedagógico, um sócio do Sporting na casa dos 30 anos. 23h00 - Um grupo ensandecido de 15 adeptos trepadores consegue subir um autocarro da Carris e faz a festa. O condutor, incrédulo, confessa-nos mais tarde que só sai dali quando o deixarem passar. O 59 para a Boa... perdão, Belavista, ficou uma hora e meia parado à entrada do Rossio e uma inversão de marcha livrou o veículo, vazio de passageiros, da loucura instalada. 23h10 - Nos Restauradores milhares de pessoas esperam o espectáculo da passagem do autocarro do Sporting. Há farturas, bifanas, cachorros e as "bejecas" que tantos procuravam deseperadamente. O cortejo de centenas de carros e outros veículos - bicicletas, motas, trotinetes a motor e pés - enche completamente a Avenida da Liberdade. 23h25 - De regresso ao Rossio, a paragem de autocarros não resistiu e o vidro estilhaçado desencoraja mais escaladas. Não há problema, o quiosque ao lado vem mesmo a calhar para 13 membros da Juve Leo de Setúbal, com dois estandartes, 13 cachecóis do Sporting e um do Benfica, se estabelecerem. No topo do quiosque um incêndio inesperado destrói o cachecol do Benfica. Os telemóveis ainda funcionam. 23h30 - No centro da festa, há quem tome banho nas fontes do Rossio e os profissionais já estão a tratar do problema do estacionamento. Os arrumadores chegaram. 23h45 - Momento "music-hall": "Só eu sei..."; "Campeões, nós somos campeões"; "Uma curva belíssima, uma equipa fantástica..."; "João Pinto, João Pinto, hei, hei"; e a infinita gratidão ao Benfica, com referências musicais cubanas - "Fora da Europa, Benfica fora da Europa", lembrando vagamente uma melodia de José Fernandez Diaz. 00h01 - É avistado um jogador de futebol rapidamente identificado. Silas, jogador da União de Leiria, está na festa verde e branca com um assumido cachecol do Sporting ao pescoço, com a namorada debaixo do braço e sem vergonha de cantar pelos leões. 00h17 - É oficial. Não cabe mais ninguém no Rossio. Uma rápida trepadela permite ver que há muitos que seguem o caminho do rio e vão pela Rua do Ouro sempre, mas sempre, a cantar os segredos do que os afastou de sua casa, em direcção à Praça do Município, onde a festa vai desembocar. Cantam-se variações do "hit" da temporada: "O Rossio todo a cantar, força Sporting allez..." 00h25 - O Teatro D. Maria II é do Sporting? Três incógnitos agitam cachecóis no varandim do teatro nacional. 00h50 - Os sportinguistas começam a exasperar-se e a especular sobre os hábitos alcoólicos dos jogadores e suas formas de entretenimento no hotel onde se concentraram antes da festa. Fazem-se "comboios" como se fosse dia 31 de Dezembro, misturando vinho verde, jovens de Alfama e dois Pauliteiros de Miranda. A festa é ruidosa, animada e bonita como só tantas pessoas podem fazer. As pequenas doses de desobediência civil que tanto agradam nestes ajuntamentos e às multidões fazem chorar algumas crianças e cantar milhares de adeptos. 00h53 - A tal desobediência civil começa a subir de tom e os carros que voltam a tentar passar em direcção ao Tejo rapidamente se arrependem. Os cachecóis não evitam que se façam autênticos batidos de automóvel, com sabor a Sporting. Uma camioneta com uma altura de respeito e ostentando a sigla das Forças Armadas é conquistada por um adepto histérico, que continuou o seu surf rodoviário até à Rua do Ouro. 01h47 - Não há palavras, nem fôlego. Chegou o autocarro do Sporting, entre muitas dúvidas ( "aquele não é o Jardel, é branco!"). Quando finalmente o autocarro se aproxima do centro do Rossio, todos se atropelam há quem tente chegar ao cimo do autocarro, onde jogadores e dirigentes estão "protegidos" por alguns membros da Juventude Leonina. A polícia tenta controlar milhares de pessoas em torno de um autocarro, que como o "speaker" do Sporting explicou, "não é nosso, por isso não estraguem"! 01h55 - A multidão divide-se em dois grupos: os que têm resistência para correr com o autocarro e correr o risco de perder alguns dedos dos pés, e os "espertos à alfacinha", que escolhem a Rua Nova do Almada para tentar chegar à Praça do Munícipio antes dos outros. Azar, já lá estavam milhares. Os telemóveis deixaram de funcionar. 02h00 - O autocarro chega à Praça. Jardel e João Pinto são os desejados, mas Laszlo Bölöni não é esquecido. Os cânticos mais ou menos elaborados repetem-se. Momentos como o quando o jovem Hugo Viana ou Bölöni pegam nas tochas acesas por Fernando Mendes, dirigente da Juve Leo, emocionam dezenas de sportinguistas. 02h10 - Olhando para cima, alguém especula que a varanda da Câmara de Lisboa, pejada de gente, "deve estar cheia dos filhos do Santana Lopes". Quando a equipa lá chega, repetem-se os irredutíveis "Todo o estádio a cantar... Só eu sei..." 02h13 - O presidente da Câmara de Lisboa, ex-presidente do clube de Alvalade, congratula o Sporting pela vitória e aproveita para dar os parabéns aos adeptos pelo seu civismo e uma saudação aos outros clubes de Lisboa. "Repleta" de civismo, a mole humana na Praça do Município assobia em uníssono e insulta toda a família dos benfiquistas. 02h15 - Quase todos os jogadores têm direito ao seu cântico, numa apoteose na varanda da Câmara que garantem não esquecer. Depois de muita música - não é preciso puxar muito pela cabeça para adivinhar qual - Mário Jardel, no seu habitual "low-profile", pega no microfone e começa "Eu, Mário Jardel...", aproveitando para agradecer o apoio dos sócios e dizer aquilo que muitos agradeceram em silêncio. Jardel quer ficar no Sporting para o ano. 02h30 - Já de novo no autocarro, em frente ao edifício camarário, o ambiente é visivelmente descontraído. Bölöni e Jardel trocam "caldos" e o goleador brasileiro mostra a camisola, desta feita com o número 16, e com o nome de Karen, a sua mulher. O romeno Marius Niculae é um dos mais agraciados com o carinho dos adeptos na noite do título. Canta-se, mas sobretudo conversa-se sobre o avançado romeno, num misto de respeito e simpatia pelo jogador, lesionado desde a penúltima jornada da primeira volta do campeonato. Quando o autocarro do Sporting deixa a Baixa, a festa dispersa-se mas continua emocionada. "Uma festa do título é sempre uma festa do título", comenta-se. Para trás ficam garrafas vazias no chão, alguns estragos, muita alegria e danos nas cordas vocais. À frente está o jogo com o Beira-Mar, que marca a festa oficial do título em Alvalade. E a final da Taça, contra o Leixões, em que muitos depositam a esperança da "dobradinha". |